Moscou interferiu na eleição de Trump. E daí?
Os russos tiveram uma atuação durante a eleição de Trump, mas seus objetivos provavelmente foram mais sutis do que se pensa.

A confusão provocada pelos indiciamentos de Mueller deve divertir Putin. Se a meta era desmoralizar a política dos EUA aos olhos de seus cidadãos e do mundo, o sucesso foi total
O procurador estadunidense Robert Mueller indiciou 13 russos, na sexta-feira 16, por usar técnicas de comunicação nas redes sociais para interferir na política dos EUA, inclusive promover a candidatura de Donald Trump à custa de Hillary Clinton. Os partidários dela e da corrente principal do Partido Democrata julgam-se agora justificados em atribuir a derrota à intervenção russa.
Em debate na CNN, a jornalista Karen Tumulty, do Washington Post, comparou o caso ao ataque japonês em Pearl Harbor e aos atentados do 11 de Setembro. O escritor Timothy Snyder no Guardian, dia 12 de fevereiro, escreveu que os EUA “perderam uma guerra cibernética para a Rússia em 2016”.
Sem dúvida, o mundo está em meio a uma guerra de informação e propaganda, mas esse viés obscurece o fato de os EUA intervirem rotineiramente na política e nas eleições de todo o mundo (uma comissão parlamentar russa listou, em resposta, mais de 100 ocasiões em 60 nações desde 1946) e exagera o alcance dessa manobra.
Segundo Mueller, os russos teriam iniciado em 2014 a operação, cujo orçamento seria de 1,25 milhão de dólares por mês e teria envolvido “centenas de indivíduos online”. Por que isso seria tão decisivo para uma campanha eleitoral que gastou quase 1,2 bilhão do lado democrata e mais de 600 milhões do republicano? Que representa um punhado de russosante as vastas equipes de profissionais de cada uma das campanhas (4,2 mil para Hillary e 880 para Trump a um mês da eleição, segundo a NBC), para não falar de talvez 1 milhão de voluntários em campo de cada lado e dezenas de milhões de simpatizantes nas redes sociais?
Isso é atribuir aos russos o poder sobrenatural dos alienígenas escravizadores de mentes que os simbolizavam na ficção científica macarthista dos anos 1950. Hillary perdeu principalmente por não poder se livrar da imagem e do discurso elitista e tecnocrático, incapaz de inspirar confiança e entusiasmo em seus potenciais eleitores no atual clima político. Se os russos ajudaram a animar republicanos e desalentar democratas, foram uma gota d’água no oceano.
Outra narrativa parte de executivos do Facebook. Na sexta-feira, o diretor de publicidade, Rob Goldman, foi ao concorrente Twitter aplaudir Mueller, mas também afirmar que a ação russa está sendo mal interpretada. “O principal objetivo da propaganda e do esforço de desinformação russos é dividir os EUA usando nossas instituições, como a liberdade de expressão e as mídias sociais, contra nós. Isso provocou medo e ódio entre os estadunidenses. Está funcionando incrivelmente bem. Estamos bastante divididos como uma nação.”
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Acrescentou que a maior parte dos gastos russos com anúncios no Facebook aconteceu depois da eleição. Entretanto, apontou como exemplo um protesto ocorrido em 21 de maio de 2016 em frente a um centro muçulmano em Houston, no Texas. Os manifestantes xenófobos contrários à nova biblioteca do centro (financiada pelo governo, diziam notícias falsas), com camisetas “White Lives Matter”, teriam sido mobilizados por uma página do Facebook intitulada “Heart of Texas”, com uma campanha “Parem a Islamização do Texas”.
Os contramanifestantes pró-muçulmanos foram incentivados por outra chamada “United Muslims of America” com a campanha “Salvem o Conhecimento Islâmico”. Cada página tinha centenas de milhares de seguidores. Ambas foram criadas de São Petersburgo, na Rússia, e 200 dólares foram pagos de lá para promover ambos os eventos.
Acusado por democratas de ser um dos principais meios de divulgação de propaganda e notícias falsas pró-Trump durante a campanha, pelos republicanos de promover ideias liberais com sua política de promoção e censura de postagens e pela mídia de favorecer os boatos e o sensacionalismo à custa do jornalismo profissional, o Facebook ainda tenta se vender como uma “plataforma neutra”. E, assim como os democratas usam a operação russa para se absolver da responsabilidade pela derrota, a rede social quer usá-la para se inocentar de seu papel na deterioração do discurso público.
A onda de intolerância furiosa começou durante a campanha de Barack Obama, marcada pela onda de fake news a respeito da origem e religião do futuro presidente. Embora tais rumores, originalmente partidos tanto de conservadores quanto de partidários de Hillary durante as prévias democratas, tenham sido desprezados pelas mídias sérias, eles atingiram um vasto público por meio da internet, e-mails anônimos, sites sensacionalistas e redes sociais, cujo papel no debate político explodiu bem antes de 2014 e de forma bastante lucrativa para elas, que mais ganham quanto mais os usuários berram suas opiniões e menos param para pensar.
Mesmo se Mueller não indiciou ninguém do governo de Vladimir Putin nem apresentou provas do envolvimento do Kremlin, uma operação certamente partiu da Rússia. Mas acusá-la de dividir um país já dividido e dar a vitória a um candidato ao qual a própria mídia liberal dera uma atenção desproporcional para ganhar audiência com suas declarações ultrajantes é no mínimo ingênuo. Os objetivos dos russos foram provavelmente menos redundantes.

- De São Petersburgo, trolls animaram xenófobos e antifascistas a se enfrentar em Houston. Mas pensar que inventaram o conflito é bobagem (Foto: Jon Shapley/Houston Chronicle)
Há um conto de 1960 do escritor britânico de ficção científica Arthur C. Clarke, intitulado “Eu me lembro de Babilônia”, no qual os soviéticos lançam um satélite em órbita geoestacionária para transmitir aos EUA programas de tevê carregados de erotismo intermeado com sutil propaganda comunista, cuja transmissão Washington seria incapaz de bloquear.
“Pela primeira vez na história, qualquer forma de censura torna-se absolutamente impossível. Não há como fazer isso, o consumidor pode conseguir o que quiser em sua própria casa... não temos absolutamente nenhum tabu. Se for possível filmar, podemos transmitir”, diz o vilão dessa fábula destinada a advertir aqueles estadunidenses tão recalcados e fáceis de seduzir sobre o perigo de continuarem a se deixar ultrapassar pela União Soviética em tecnologia espacial.
Na vida real, os EUA sobrepujaram os soviéticos no espaço, o Kremlin abandonou o marxismo e captar tevê diretamente de satélites nunca chegou a ser fácil às massas. Entretanto, a internet desempenhou esse papel e os usuários dos EUA, rapidamente inundados por uma grosseira indústria pornográfica nacional, sentiram por mais tempo a falta de um debate ideológico igualmente explícito.
Pelo contrário, a concentração da mídia, somada ao “pensamento único” da era neoliberal, resultou num jornalismo dócil aos poderosos e politicamente pudico e insípido, que trata guerras e bombardeios como espetáculos, dissolve questões vitais para a sociedade na vala comum do varejo político, infla factoides para esconder problemas reais e soa falso mesmo quando acontece de dizer a verdade.
A “pornografia” pela qual estadunidenses (e não só eles) passaram a ansiar é a de opiniões claras e informações alternativas. Antes não exatamente ilegais, mas encontradas só em cantos obscuros e mal-afamados, como as revistinhas eróticas de antigamente, tornaram-se, com as redes sociais, fáceis de encontrar e reproduzir. E, como a pornografia dirigida a um público sem oportunidade de cultivar o gosto e o espírito crítico, a maior parte das publicações é sensacionalista e de péssima qualidade. Teorias conspiratórias, neonazismo, terraplanismo, fundamentalismos e outras aberrações têm o apelo rude e perverso do sexo violento.

- Cobrada pela CNN, Florine não se importa. A dica pode ter vindo de fora, mas o preconceito era dela (Reprodução/CNN)
Os russos não criaram essa onda, mas aprenderam a surfá-la. Ao incitar tanto supremacistas brancos quanto minorias a sentirem-se mais vivos e atuantes ao compartilhar mensagens exaltadas que parecem refletir seus sentimentos e levá-las também às ruas, quebram a ilusão de benevolência, harmonia e prosperidade do American Way of Life e reduzem seu apelo para o exterior.
A CNN foi à casa de uma certa Florine Goldfarb questioná-la por ter divulgado no Facebook e participado de eventos da candidatura Trump encorajados pelos russos. Evidentemente, essa senhora da Flórida não se vê influenciada pelo Kremlin: reproduziu lemas com os quais concordava e juntou-se a compatriotas com as mesmas noções e prevenções. Para ela, se isso foi encorajado da Rússia, é irrelevante. Assim como manifestantes no Brasil pensam ter defendido o que acreditavam e não se importam se alguém lhes adulou os preconceitos, sugeriu palavras de ordem e os incentivou a ir às ruas.
Ao associar as mensagens que esses públicos queriam ouvir às suas próprias, os russos também ampliam as dúvidas do público ocidental sobre seus governos e instituições, sobre sua mídia e suas elites e sobre o resto do mundo. E se as intervenções dos EUA no exterior não forem tão altruístas nem seus motivos tão impolutos? E se seus inimigos não forem piores que seus aliados? E se a Ucrânia e o Oriente Médio não forem histórias de mocinhos e bandidos?
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A reação ocidental tem sido inepta. Busca meios de suprimir o acesso não só às tevês a cabo, mas também às redes sociais de veículos como o Russia Today (RT) e Sputnik e quaisquer organizações russas como produtoras de fake news, como se a mídia e as organizações ocidentais não tivessem seus próprios vieses e não distorcessem a política e o debate público em todo o mundo. Pelo contrário, tanto governos quanto fundações mantidas por suas elites (Bill Gates, irmãos Koch, George Soros e Pierre Omidyar, por exemplo) fazem o mesmo em nome de ideologias liberais ou conservadoras, com muito mais recursos.
A operação da Rússia é apenas um pálido reflexo daquelas promovidas por ocidentais no exterior, das “revoluções coloridas” da Europa Oriental e Ásia aos “manifestoches” da América Latina. O pânico de mídias e elites ante um desafio tão limitado em recursos é uma confissão de incompetência na comunicação com seu próprio povo.
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